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O TEATRO DO TREINADOR


Olá, tudo certo? Espero que estejas bem.


Durante minha carreira como atleta profissional, ouvi inúmeras vezes treinadores ou membros da comissão técnica transmitirem a seguinte mensagem: “Quando você entrar no clube, deixe os problemas lá fora e concentre-se no que precisa fazer para evoluir.” Um deles chegou a usar a expressão: “Aqui é como se você fosse outra pessoa.”


Recentemente, li um artigo em que o autor criticava treinadores das categorias de base e escolinhas que, à beira do campo, comportam-se como se estivessem dirigindo uma final televisionada. Muito “tatiquês” para impressionar os pais, gritos excessivos, reclamações constantes com a arbitragem, palavrões e demonstrações exageradas.


Isso me levou a uma reflexão que compartilhei recentemente em um encontro amigos que também são treinadores de futebol:


Nós, enquanto treinadores, temos consciência de que desempenhamos um papel específico quando estamos no “palco” — seja à beira do campo ou diante da imprensa? É válido, dependendo do contexto, “teatralizar” certos comportamentos? E, se for, até que ponto?


O debate foi riquíssimo. A troca de experiências foi fantástica.


Alguns destacaram que, quando esse “teatro” é exagerado, muito distante da personalidade real do treinador ou motivado por autopromoção, os atletas percebem rapidamente. E quando percebem, a liderança pode perder força.


Outro ponto levantado foi o da modelagem comportamental. Se trabalho, por exemplo, com uma equipe Sub-15 e sou admirador do estilo de Jorge Jesus, não significa que devo reproduzir seus comportamentos à beira do campo. São contextos diferentes, com necessidades diferentes e, consequentemente, exigências diferentes.


Pessoalmente, não vejo o “teatro do treinador” como algo negativo. Pelo contrário: acredito que seja algo necessário, desde que exista consciência sobre ele. Faz parte do espetáculo.


Treinadores comunicam o tempo inteiro — mesmo quando não percebem. O tom de voz, as expressões faciais, a postura corporal, a forma de lidar com pressão, com derrotas e com a imprensa, também transmitem mensagens.


Abel Ferreira, por exemplo, parece ter construído um personagem que, de certa forma, potencializa sua carreira e fortalece sua equipe. Ele entendeu como utilizar a beira do campo e a sala de imprensa a seu favor. Tom de voz, ironia, expressões, narrativa. Em tempos de mídias sociais, talvez essa gestão de imagem precise ser cada vez mais intencional.


O futebol também é espetáculo. É performance. É business. E o treinador faz parte dessa engrenagem.


Por isso, a capacidade de compreender o contexto e adaptar-se a ele torna-se uma competência fundamental para aqueles que desejam se diferenciar e permanecer competitivos nesse ambiente.


Mas perceba: falei sobre adaptar-se, não sobre transformar-se em alguém que você não é.


Tudo tem limite.


E qual é esse limite?


Sua identidade. Seus princípios. Seus valores.


Isso é inegociável.


Não se corrompa.


Seja autêntico.


Forte abraço, e que Deus te abençoe hoje e sempre.


Marcelo Salazar

18/05/2026



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